A direcção da migração entre as antigas colónias e os seus colonizadores é habitualmente arrebatadora numa direcção: Os nigerianos e o quenianos para Londres; Cameronianos e senegaleses para Paris; Congoleses para Bruxelas, e assim sucessivamente. As antigas colónias dirigem-se para os seus antigos territórios, procurando oportunidades económicas, ou apenas riqueza e estatuto.
Porém, Angola, contraria a tendência. Em 2011 existiam 21,563 Angolanos em Portugal, comparativamente aos 100,000 Portugueses que viviam em Angola. A atracção é evidente, a mesma razão que motiva as pessoas: ter uma vida melhor para si e para as famílias que deixam no país.
Neste caso, os Portugueses que fogem à austeridade e ao nível elevado de desemprego têm-se dirigido para Angola, que actualmente vive um forte crescimento.
À economia Angolana, fortemente ligada à indústria de petróleo, pode faltar diversidade. Porém, o petróleo (que representa mais de 70% do rendimento do governo e mais de 90% das exportações) e os diamantes ajudaram ao crescimento angolano de 15% atingindo o seu máximo entre 2002 e 2008.
Mesmo que a taxa tenha caído para 8-10% em 2012, estava muito melhor do que em Portugal, cuja economia regrediu 3%, em período homólogo. A decisão do governo em investir fortemente no sector bancário em Angola impulsionou um crescimento dos seus activos de 3 biliões de dólares em 2003 para 57 biliões de dólares em 2011, classificando-a em terceiro lugar, logo a seguir à África do Sul e Nigéria, na África subsariana.
Com o aumento da riqueza acorreu uma agitação de investimentos e aquisições estrangeiras de bancos portugueses e canais de imprensa. Isabel dos Santos, filha do presidente angolano José Edudardo dos Santos e a primeira bilionária africana, adquiriu cotas em diversos bancos Portugueses, como o Banco BIC e o Banco BIP, o quarto maior banco de Portugal. A infiltração é tão competitiva que em Junho de 2015 a al-Jazeera designou a aquisição de media como “colonialismo invertido”.
A mudança das fortunas não só foi visível no balancete anual mas nas atitudes dos angolanos: orgulhosos da nossa presença em Portugal, orgulhosos por controlarmos o nosso antigo colonizador.
Os angolanos visitam Portugal com maior frequência e estão mesmo a investir em segundas habitações. Longe de casa, a narrativa sobre Angola está igualmente a mudar, os angolanos desfrutam da admiração e elogios dos estrangeiros. Quando alguém sabe que sou angolana, a resposta é quase sempre: “Vocês estão muito bem, não é assim?”
Mas, será este desenvolvimento credível? Os petrodólares começaram a distribuir-se; estão a ser construídas novas cidades completas; e estão a ser desenvolvidos planos para grandes centros comerciais. Mas isto foi o máximo que a maioria dos angolanos pode assistir deste novo crescimento económico. Angola tem a taxa mais elevada a nível mundial de mortalidade infantil abaixo dos cinco anos; em 2013, 36% da população vivia abaixo da linha de pobreza e o desemprego atingia os 26%.
À semelhança de muitos angolanos, e na verdade africanos, eu recebo de bom grado o reconhecimento que podemos conseguir operar a nível mundial. Mas sempre que a família e os amigos regressam a casa colocamos-nos as mesmas questões: por que não vemos esta riqueza e crescimento económico sobre o qual tanto lemos? Parece que os Portugueses em Angola não nos garantem a nossa grandeza mas lembram-nos da nossa fragilidade da nossa história de crescimento.
Podemos rir agora, mas os Portugueses que chegam com capital para iniciar um negócio encontram um local preparado nas classes médias da nossa nação. Angola pode estar a dominar o seu antigo colonizador, mas será este o verdadeiro rosto da nossa independência?
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